
Fôra proposto pela professora Élica Paiva da disciplina de Estética da Comunicação, aos estudantes de Jornalismo e Publicidade da UNEF, assistir a uma peça teatral que tem por título "Valsa nº 6" de Nelson Rodrigues, no Centro de Cultura Amélio Amorim, neste último domingo dia 07/03/2010.
Eis o Monólogo abaixo:
Personagem: Sônia, menina assassinada aos 15 anos."Sônia!... Sônia!... Sônia!...
Quem é Sônia?... E onde está Sônia?
Sônia está aqui, ali, em toda a parte!
Sônia, sempre Sônia...
Um rosto me acompanha... E um vestido... E a roupa de baixo....
Roupa de baixo, sim,
diáfana, inconsútil...
O vestido que me persegue... De quem será, meu Deus?
Mas eu não estou louca!
Evidente, natural!... Até, pelo contrário, sempre tive medo de gente doida!
Na minha família — e graças a Deus — nunca houve um caso de loucura...
Parente doido, não tenho!
Só não sei o que estou fazendo aqui...
Nem sei que lugar é este.
Tem gente me olhando!
Meu Deus, por que existem tantos olhos no mundo?
Depois eu me lembro de tudo o que fui, de tudo o que sou.
Então, o Dr. Junqueira chamou mamãe e disse...
No tempo de mamãe usava-se espartilho, róseo e de barbatana.
Mamãe está chorando.. . Papai, ao lado, nervosíssimo!
Mas que foi que aconteceu, ora essa?
Dr. Junqueira diz..
Desequilíbrio mental — he! he! Desequilíbrio mental!
De quê? Desequilíbrio mental de quem? Não meu!
Não quero ser a primeira doida da família!
Já sei por que o Dr. Junqueira descobriu que eu estava doida!
Quem? Dr. Junqueira?
Dr. Junqueira, nosso médico, sabe?
Ele sempre me meteu medo, o Dr. Junqueira!
Que idade você tem, he, he!
Não! não!
14 anos, já, é?
Não me toque!
Ele disse que eu estava doida porque comecei a ver coisas. E ouvia vozes...
Vozes caminhando no ar...
Via mãos, rostos e pés boiando no ar.
Uma noite, foi até interessante. De repente, descobri na parede do meu quarto, um rosto, sempre o mesmo. Um rosto que não saía dali!
Fui acordar mamãe. Mamãe, vem, mamãe!
Mas que foi, minha filha? Você até assusta!
Ali, mamãe! Ali, onde?
Será possível que a senhora não veja, oh mamãe!
Mas ela não via. Nada, nada... E, então, mamãe se virou para mim. Sua vontade foi gritar. Por que não grita?
Grite, mamãe, grite!
Recuou, assim.
Mamãe, aonde a senhora vai? Volte!
Uma neblina, uma espécie de nuvem envolveu mamãe!
Ela se debatia dentro da neblina!
Eu sentia uma dor cravada na minha fronte!
Chamem a Assistência!
Médico!
Assistência!
Dr. Junqueira!
Nossa Mãe!
Dr. Junqueira vem já! Evém! Evém!
Gritei.
Meus gritos se espalharam por toda a parte.
Meus gritos batiam nas paredes, nos móveis, como pássaros cegos.
Gente coma dentro de casa.
Bacia!
Mas pra que bacia?
Claro! Bacia!
S. Jorge!
S. Benedito!
S. Onofre!
Eu própria me sentia adormecida... Adormecida entre gritos...
Afinal, esse Dr. Junqueira vem ou não vem?
Dr. Junqueira, não quero! Não deixo ele olhar minha garganta!
Não admito que homem nenhum veja minhas amígdalas!
Evém o Dr. Junqueira... Seus passos na calçada... Depois na sala... Agora na escada...
Ele quer ver minhas amígdalas!
Mamãe se atraca com o Dr. Junqueira. Tem um ataque.
Minha filha está morrendo, Dr.!
Calma no Brasil!
Salve minha filha! Pelo amor de Deus, salve!
Uma bola, o Dr. Junqueira!
Um número!
Minha filha escapa, Dr.?
Então, o Dr. Junqueira...
Aqui, alguém conhece o Dr. Junqueira? Porque eu, imagine, eu guardei o nome, mas não me lembro de seu rosto e...
Será mocinho?
É por isso que, às vezes, eu mesma, me julgo doida...
Porque as coisas, as pessoas deslizam e fogem de mim, como cobras.
Sei que, naquela noite, o Dr. Junqueira acudiu de pijama e, por cima, a capa de borracha...
Mas eu só vejo o pijama, a capa e nada mais.
Agora mesmo. O senhor, que está aí...
Sim, o senhor! Estou vendo seu paletó... E seus sapatos... Eles estão aqui...
Posso tocá-los. . . Mas não vejo mais nada...
Como se não existissem pés nos sapatos...
Mas o senhor precisa ter rosto!
Sei que as pessoas usam rosto...
Cada perfil tem dois lados e...
Então, como é que o senhor não usa duas faces?
Vamos salvar a menina, Dr.?
Agora, o médico vai aplicar a injeção intramuscular, indolor... Região glútea...
Pimba!
Sedol. Calmante daqui.
Efeito rápido. Tiro e queda.
Agora, a doente vai dormir.
Tomara, doutor!
Deus é grande, he, he, Deus é grande!
Agora, ela vai ficar sozinha! Todo mundo pra fora do quarto! Já.
Sônia!
O único nome de mulher, que eu guardei. Todos os outros desapareceram de minha vida.
Sônia, um nome que eu acho bonito, quase branco...
Mas a mim, Sônia, não, a mim, tu não me enganas!
Sei que estás em casa, em algum lugar da casa. . . Talvez no meu próprio quarto...
(corre para o piano e toca, em desespero, a Valsa n.º 6)
Já sei!
Aposto que o Dr. Junqueira é velho. Desses velhinhos camaradas, que põem colete. Usam pince-nez.
E tem asma!
Ah, e só trata de mulher, o diabo do velhinho! De mocinha, senhora ou menina!
No bonde, paga passagem para pequenas que ele nunca viu. Até menina de colégio, imaginem!
Saíram todos do quarto... Papai, já sabe...
De papai — engraçado — só me lembro do bigode... Bem, mamãe, chorando, coitada! Papai acabou tendo que ralhar!
Você está fazendo um carnaval! Um autêntico carnaval! Que diabo!
Mas é minha filha!
Uma menina que tem uns modos tão bonitos!
Dr., e afinal...
Caso sério!
Como assim?
O senhor até assusta!
É o diabo!
Está insinuando o quê?
Acho, isto é, quer-me parecer... Aliás posso estar enganado...
E que mais?
Foi a idade!
Foi o que?
A idade!
Cáspite!
Vejam só!
Essa que é boa!
Dr., use de sinceridade!
A menina tem 14 anos.
Quinze.
Ou quinze.
Mas que é que tem? É algum crime? Será que uma moça não pode ter 15 anos?
Continue, Dr.
A passagem... A transição.
Não entendi patavina!
Sua filha era menina. Transformou-se em mulher...
E houve o choque! O abalo!
A idade! Acho que o senhor adivinhou, Dr.!
Minha filha tem mudado muito! O senhor não faz uma idéia!
(corre ao piano. Executa trecho da Valsa n.0 6)
Foi, sim! Um abalo muito grande. É por isso, que, às vezes, eu tenho certas esquisitices e vejo certas coisas. .
Mudei tanto!
Antes, eu era uma menina...
E me sentia feliz. Porém, agora...
Que foi que mamãe disse?
O que Paulo fez com minha filha, não se faz!
Não foi papel!
Paulo... Meu Deus, Paulo!
Esse desgosto também contribuiu!
Desgosto, eu?
Mas eu não tive desgosto nenhum! A não ser, bobagem sem importância...
Tive, sim, um desgosto, agora me lembro... Foi num domingo... Eu estava pronta para ir à missa, quando começou a chover...
Minha filha!
Eu.
Você não pode ir com esse tempo! Ah, não! Tenha santíssima paciência, mas eu não deixo!
Então, eu vou cometer um pecado! O padre disse que não ir à missa é pecado!.
Chovia, sim... E quando chove em cima das igrejas, os anjos escorrem pelas paredes.
Esse foi o desgosto..
Outro que eu me lembro...
Não, só me lembro desse mesmo.
Se o Dr. Junqueira quisesse pagar a passagem do meu bonde, eu não deixaria!
Mas Paulo... É um doce nome... E poroso... Seria meu primo? Ou quem sabe se namorado?
Ou noivo?
Não, não!
Se eu tivesse namorado — ou noivo — ele estaria, aqui, de mãos dadas comigo...
Noiva eu?
Mas de quem?
Digam!
Eu tenho a face, as mãos, os olhos de uma noiva?
Há uma grinalda, em mim, que eu não vejo? Nos meus cabelos?
Uma grinalda atormentando minha fronte?
Mas, então, terei de ser noiva de alguém!
E se eu fosse noiva de ninguém?
Paulo e Sônia... Quero-me lembrar dos dois... E...
Oh, Dr. Junqueira pagando a passagem de uma menina de colégio!
(senta-se ao piano e começa a Valsa n.0 6. Depois, breve trecho da Marcha Nupcial)
Paulo é apenas um nome...
um nome suspenso no ar, que eu poderia colher como se fosse um vôo breve.
Mas um nome vazio, sem dono.
Me proteja, minha Santa Teresinha!
Eu não me lembro de nada, a não ser de nomes...
Por isso, muitos têm medo de mim... E ninguém me contraria... Porque estou num mundo... Sim, num mundo em que tudo que resta das pessoas são os nomes.
Por toda a parte.
Nomes, por todas as partes... Descem pelas pernas da mesa... Se enfiam nos cabelos...
Eu esbarro neles, tropeço neles, meu Deus!
Até, quem sabe se...
Talvez Paulo esteja, aqui, a meu lado. .
Rindo de ...
Não, Paulo, não!
Me abraçando!
Ou beijando, quem sabe?
Até me admira, Paulo, que você faça essa idéia de mim!
O quê? Eu?
Ah, você não me conhece!
Pois olhe: eu nunca fui à Quinta da Boa Vista. As outras iam, me convidavam, mas eu, que esperança!
Não venha, Paulo!
Longe de mim, maldito!
Sejas quem fores, eu te odeio!
Odeio a um Paulo que não conheço, que nunca vi... Mas...
Se eu não conheço Paulo, ele poderá ser um de vós!...
Talvez um de vós seja Paulo...
Mas eu não vejo o vosso rosto... Nem o de ninguém aqui...
E cada um de vós?
Tem certeza da própria existência?
Respondam!
Ou sois uma visão minha, vós e vossa cadeira?
(corre, cambaleando, para o palco. Senta-se ao piano. Começa a Valsa nº 6)
Não!
Não quero mais esta música! Qualquer uma, menos esta!
Nesta rua, nesta rua,
Tem um bosque,
Que se chama, que se chama
Solidão
Dentro dele, dentro dele,
Mora um anjo, etc. etc. etc.
Vou tocar esta, que é mais bonita!
Nesta rua, nesta rua.
(mas toca, contra a vontade, a Valsa nº 6)
Não é isso!
Mora um anjo que...
(e o que sai do piano é, ainda, a Valsa)
Valsa amaldiçoada!
Meus dedos só sabem tocar “isso”!
Valsa que me faz sonhar com Paulo e Sônia.
Uma Sônia translúcida e um Paulo esgarçado...
Dr. Junqueira é doido pela Valsa nº 6!
Ah, toca a valsa, minha filha, pelo amor de Deus!
Paulo, eu te odeio, e por que, Paulo?
Que fizeste de mim, do meu rosto e dos meus 15 anos?
Se eu pudesse enterrar as unhas na carne macia do teu pescoço!
Dize, ao menos, o que eu sou de ti?
Noiva?
Prima?
Cunhada?
Que sou eu de ti?
Esperem, esperem!
(corre ao piano, e toca a Valsa nº 6)
Estou-me lembrando! Aos poucos...
Paulo cresce como um lírio espantado...
Vejo a testa, as sobrancelhas, os olhos, o puro contorno dos lábios!
Mas tua fisionomia está mutilada!
Faltam várias feições!
Agora te vejo de corpo “quase” inteiro...
“ Quase”, porque eu me lembro de tudo, sim...
Só não me lembro dos teus sapatos. De que cor, de que modelo eram?
E como não consigo me lembrar dos sapatos, tua imagem aparece descalça na minha lembrança.
Por que não te calças, Paulo?
Aposto que Sônia anda por aí.
Mas, Paulo, eu me lembro de ti e de mim. E de mais nada.
Porém, duas pessoas não podem existir sem fatos.
Fatos! Sim, é isso! Isso mesmo!
Fatos... Bem que eu sentia falta de uma coisa. Era deles, dos fatos!
Que aconteceu entre nós, Paulo? Deve ter acontecido alguma coisa!
Que fizeste, Paulo?
Me beijaste, foi, querido?
Ou me traíste?
E quem sabe se com Sônia?
(já no piano dá violento acorde)
Só não queria que fosse com Sônia!
E se já me beijaste, que seria hoje este beijo senão uma sensação perdida?
Porém, é que... Fizeste uma coisa, sim, da qual não me lembro, uma coisa, não sei, que me separa de ti e...
Ela é muito meiga!
Uma boa menina.
Educada.
Se é.
Sou, não sou?
Mas ninguém sabe as ganas que tenho.
De te bater!
De te estrangular, Paulo!
Talvez sejas doce como um primo criado com a gente, mas.
O punhal, que papai me deu de presente... De prata.
Eu cravaria em ti este punhal!
Sabe, Paulo?
Eu escondia meu ódio, e o dissimulava dia e noite.
Se bem que eu tinha muita insônia.
Uma insônia cravejada de ódio!
(corre ao piano. Valsa nº 6. Espantada)
Mas roubaram o meu punhal...
Como? Ah, sim, pois não! O meu punhal de prata... De penetração macia, quase indolor.
E naquele dia, te inclinaste, Paulo...
... para um beijo rápido.
Mas Paulo! Não beijaste a mim!
A mim, não...
Beijaste alguém, que não era eu, que sou tua namorada ou noiva!
A mulher a quem beijaste, ainda ficou de boca entreaberta... Eu vi pelo espelho, tudo!Mas quem foi, Paulo, quem foi?
Sônia! Beijaste Sônia!
(corre ao piano, toca, passionalmente, a Valsa nº 6, ao mesmo tempo que soluça de rosto para a platéia)
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Bento que o bento, ó frade!
Frade!
Na boca do forno!
Forno!
Virai um bolo!
Bolo!
Faremos tudo o que seu mestre mandar?
“Fazeremos” todos!
Não sei, meu Deus!
Isto é, Sei! Foi assim.
(senta-se ao piano. Breve trecho da Valsa nº 6)
Eu estava tocando a Valsa, a pedido de alguém.
Foi, não foi?
Então, esse alguém veio devagarinho, pelas costas...
E que mais, meu Deus? que mais?
Não havia mais ninguém na sala. Só nós dois...
Mas então eu tive um mau pressentimento... Parei de to...... A pessoa pediu: CONTINUE! CONTINUE!
Gritava: MAIS! MAIS! MAIS! SEMPRE MAIS!
E depois...
Que aconteceu depois?
As lembranças chegam a mim aos pedaços. . . Ainda agora, eu era menina.
Onde está a Margarida, olé, oh, olá?
Vejo restos de memória, boiando num rio,
Num rio que talvez não exista...
Passam na corrente gestos e fatos.
Eis um fato antigo.
Vejo também pedaços de mim mesma por toda parte...
Meu Deus, como era mesmo o meu rosto, meus cabelos, cada uma de minhas feições?
Minha senhora, esqueci meu rosto em algum lugar.
Mas eu não saio daqui, antes de saber quem sou e como sou.
Onde está a Margarida...
Onde está a Margarida,
Olé,
Acho que sou menina!
Não, não...
Olé, Oh, Olá... Acho que sou mulher...
fumando numa piteira de âmbar...
Ou, então, uma senhora gorda que sofre dos rins, do fígado
e se queixa de azia!
Senhora, existem ou existiram espelhos?
Ou, então, conheceis a água translúcida de um rio?
Um rio, sim, onde meu rosto possa deitar-se entre águas?
Essa música, estão ouvindo?
(Valsa nº 6)
Era a paixão de Sônia!
A música que Sônia tocava muito!
Mas eu não odeio Paulo!
Eu disse que odiava?
Mas, não, nunca!
Tudo não passou de um mal-entendido!
Pois se até gosto muito dele!
Tenho verdadeira adoração!
Adoração como?
Ora essa!
Depois do que ele fez!
Beijou outra!
Eu bem!
Odeio, sim, mas Sônia!
Ah, se fosse comigo!
Porque fique sabendo que eu sou geniosa
Nasci no Recife, bairro da Capunga!
E tira o cavalo da chuva!
Saibam que amo Paulo!
tão bonito que se eu pudesse...
vivia acendendo círios diante dele.
Mas Sônia não me larga. Ela me espia!
Agora mesmo..
Eu sinto os olhos de Sônia dentro de mim...
Sônia está neste momento...
enroscada nas minhas pernas, como uma serpente de mil anéis!
Tu, Paulo! Eu te peço!
Darling! Darling!
Quem?
Sônia!
Ora veja!
Imagine, Sônia!
Falsa, falsíssima!
Os olhos, o sorriso, a cor dos olhos!
Tudo, em Sônia, não presta, juro!
Até eu soube de um caso... Não sei se alguém me contou ou se eu mesma vi...
Eu mesma vi!
Com estes olhos que a terra há de comer!
Viu, é?
Conta!
Ah, conta!
Mas olha que é segredo!
Pois Sônia...
... tem um caso...
COM UM HOMEM CASADO!
Que tal?
O quê?
E Sônia?
Virgem!
Nossa Mãe!
Que blasfêmia!
Pois é, homem casado! Casadinho! E está direito? Claro que não, evidente, onde já se viu, essa é muito boa!
Eu, não, Deus me livre! Homem casado, comigo, está morto. enterrado!
Oh, Paulo!
Além disso, eu não acharia bonito homem casado!
Homem casado não é bonito.
Nem tem lábios meigos de beijar,
Nem sombreado azul de barba!
Eu preferia morrer!
Jamais homem casado roçou meu corpo com a fímbria de um desejo!
Mas por que Sônia não namora menino de sua idade? Tão natural, não é mesmo?
Ah, não! Que esperança!
Prefere o marido de alguém!
Tem horror de rapaz nojo!
Só pensa e sonha...
com homem feito!
Interessante!
Até outro dia... Outro dia, é modo de dizer... Há coisa de um ano...
...Sônia ainda brincava de amarelinha. Que ótimo! (estaca)
Margarida... Onde está...
Oh...
Margarida...
Olá.
Sônia de meias curtas. .. E os cabelos rolando sobre o silêncio das espáduas.
Sônia era menina, tão menina, que, até, nós duas tomávamos banho juntas...
Perfeitamente.
E a toalha era só felpuda.
Eu gostava de ver as gotas, milhares, sim, milhões de gotas nas costas, nos braços, de Sônia.
Cada gesto...
era uma catástrofe de gotas.
Pois eu só gosto de namorado de minha idade.
Ou pouco mais velho, só.
Mas súbito a menina...
O que foi que houve com a menina?
Hem, Dr. Junqueira? Que foi?
Nada, nada. Coisa à-toa.
Mas Sônia anda triste.
Chora sem motivo...
Ou ri demais!
Deu para ter vergonha de tudo.
De tudo, doutor!
Uma coisa por demais!
A idade, minha senhora, a idade. A transição.
Idade?
Sônia tinha de 14 para 15 anos.
15.
Ou 15.
Começou a ter vergonha de tudo. Dos próprios pés.
Seu coração palpitava, se ela via os próprios pés, (doce) frios e nus, sem meias e sem sapatos.
Pés despidos, meu Deus!
Tem mais, tem mais!
Tinha vergonha dos móveis.
Digo dos móveis descobertos, sem nenhum pano, nenhuma toalha. Portanto móveis nus.
Quanta bobagem!
Mas, e eu?
Só se fala de Sônia! Eu própria só penso nela!
Porém agora só vou falar de mim. E de Paulo, também.
Oh, Paulo! ainda não sei quem és.
Talvez meu primo, meu noivo ou cunhado, mas sei que há entre nós os “outros”.
Os “outros” sempre existem, estão em toda a parte. . . Mas
não..
Quem me separa de ti deve ser Sônia.
Eu sei que ela pensa em ti,
e fecha os olhos.
E se tranca no quarto.
Para pensar em ti.
Até morta, pensará em ti.
(corre ao piano. Valsa nº 6)
Mas eu tenho meu punhal de prata.
E se eu pudesse apunhalar um nome, cravar neste nome um punhal. Depois vê-lo agonizar aos meus pés.
Se eu pudesse matar o nome de Sônia!
Porém roubaram o meu punhal de prata.
Que esperança! Eu não mataria ninguém. Nem mesmo um nome, juro!
Não há uma assassina em mim!
Além disso, um defunto contamina tudo com sua morte, tudo, a mesa e a dália.
Eu não mataria. Agora Sônia é diferente!
capaz de tudo!
Mas só elogiam Sônia. E a mim, não.
Sônia é isso, Sônia é aquilo.
Sônia tem vocação para música, piano, bordado.
Sônia precisa fazer operação de amígdalas.
Eu também preciso, ora essa!
Também quero tirar as amígdalas!
E sei tocar Valsa nº 6 direitinho.
Sônia já desejou a morte de alguém.
De quem?
Dele, é lógico. Mas quem é ele?
Deve ser um homem casado. . . Ou, então, Paulo!
Sim, desejou a morte de Paulo. Imaginou Paulo morto.
Sonhou com um velório não sei por que muito branco.
Sônia dança, Sônia canta!
Dançaria até na câmara ardente de Paulo.
Quem sabe se, na dança, não tropeçaria num círio?
Mas num velório há sempre um cafezinho.
Distribuição e alarido de xícaras e pires.
Mais açúcar, madama?
Hipócrita! Mentirosa!
Bem. Eu sei fazer muitas coisas.
Declamo.
Conheço não sei quantas receitas de bolos.
E, uma vez, cerzi uma calça 4e papai tão bem, que nem parecia.
Ela não desejaria a morte de ninguém.
Nem de Sônia?
De Sônia, talvez.
Ótima idéia a morte de Sófia.
Mas Sônia não morrerá.
Há-de morrer, sim! Farei promessa!
Alguém gritou?
Não.
Gritou, sim! Foi, não foi? Um grito!...
Um grito parecido com um que eu conheço. Mas não pode ser.
Foi coincidência.
Engraçado, tão parecido com o meu próprio grito.
Que foi? que foi?
Uma moça.
Mataram uma moça.
Onde?
Uma moça.
Novinha.
Não é a primeira que morre.
Um homem casado matou!
Casado?
Marido de outra mulher?
Casado, sim!
No civil e no religioso.
Com filhos.
Tinha uma mulher muito boa!
Dizem que...
Dizem o quê? Quero saber o que dizem! Preciso saber!
Parece que a vítima...
Vítima, não! o nome! quero o nome!
Alguém sabe o nome? quem sabe, diga, pelo amor de Deus! Eu não quero nada demais, apenas o nome!
E o que é um nome?
Pois dizem que a vítima estava tocando uma música..
Esta?
(Valsa nº 6)
não, é?
Então, o assassino veio, devagarinho... Pelas costas...
Que mais? pelo amor de Deus, que mais?
Não havia mais ninguém na sala.
Só os dois.
Os dois, sim.
A vítima ia ao seu primeiro baile... Tinha um vestido branco, de lantejoulas prateadas, véu nos ombros... E parece que teve um mau pressentimento, porque...
Continue!
Porque parou a música...
Sei, sei!
Então, o assassino pediu...
Mais, mais!
(Valsa nº 6)
Sempre mais!
Sempre, sempre!
Mais forte!
E a vítima continuava. Não ia parar nunca. Então...
O assassino mergulhou o punhal de prata nas costas da moça.
Mesmo ferida, a vítima quis continuar tocando e.
Gritou?
Gritou.
Sei.
Mas não deu muita confiança à morte, porque ia tocando mais. Porém, a cabeça desabou sobre o teclado...
Quando apareceu gente, Sônia já estava morta.
SÔNIA!
Sônia, disseram Sônia?
Sônia, sim, como não?
Aquela menina.
Uma que tocava muito bem.
E sabia francês.
Natural.
Estudou nos melhores colégios.
Incapaz de matar uma mosca!
Morreu. Enfim, morreu. Mas eu não estou satisfeita. Nada satisfeita. Pelo contrário...
Seu enterro deve ter sido muito bonito.
E ela própria também, porque as mortas são uma simpatia.
Digo isso, porque manda a boa educação.
Uma virgem morta entre flamas.
Larga minhas pernas, Sônia.
Tu já morreste.
Teus olhos estão cegos dentro de mim.
Maldita!
feio falar mal dos mortos.
Teu vestido, sim, teu vestido de lantejoulas prateadas, já não me persegue mais!
Escondeste tua maldade de todos! Teu rosto, ninguém o conheceu.
Usaste uma face doce e altiva que não era a tua.
Só a morte viu o teu rosto verdadeiro e último.
Dançarias, não?
Dançarias, se Paulo morresse? Pois eu danço também!
Viram o assassino?
Quem?
O assassino!
Que coisa!
Completamente gagá!
Médico instruído!
Competente!
Os velhos hoje em dia são os piores!
Vamos espiar, vamos?
Está ali, deitada, a menina que iludia a todos.
Parecia uma jovem santa, branca e sem mácula, tão frágil e tão fina.
Eras boa demais para este mundo!
Vai-te!
Agora Paulo está puro de ti.
E eu queria que ninguém te visse mais.
Nem as flores do caminho.
Que teu perfil de morta passe por entre lírios cegos!
E onde quer que estejas, odiarás tua lancinante forma terrena.
O pai está que nem doido!
De amargar!
E a mãe?
A mãe é bacana. Teve 15 ataques!
Sabe o que me invocou?
Que foi? que foi?
É que, mesmo ferida, mesmo com o punhal enterrado nas costas.
...a vítima ainda queria continuar tocando.
Vocação, ora essa!
Nessas ocasiões, eu tenho muita pena de quem fica! E eu de quem morre.
Mas nem tem comparação.
Eu, hem!
Claro! Porque quem fica chora...
E o defunto?
O defunto nem sabe que morreu!
(Sônia corre ao piano. Valsa n.º6. E grita dentro da música)
Sempre! Sempre!"